Em família
O corpo da Dona Glória estava há horas na câmara frigorífica. A sua morte deixou-me intrigado, mas estar numa casa com uma câmara frigorífica foi um choque.
— Todas as portas e janelas estavam e estão fechadas. Com chuva e lama era impossível entrar sem marcas — o Capitão Coelho parecia ler a lista da mercearia — Quem deixou aquele punhal nas costas da vítima está cá dentro desde antes da tempestade.
— A vítima é a minha mãe — disse a Engª Paula enquanto segurava o telemóvel ao ouvido — e não consigo ter sinal.
O Srº Coelho, patriarca da família e pai da defunta, continuava sentado no seu cadeirão, com a manta nas pernas e o xaile pelos ombros. Estava a ter um dos seus espasmos do costume.
— Eu notei sangue debaixo das unhas. — disse eu, olhando em volta à procura da tábua de fumados. — Imagino que a Dona tenha deixado um souvenir a quem lhe ofereceu a facada.
— Ai credo. — Joaquim, outro filho. Ou Xah’kin como gostava de ser chamado. Queria sair dali porque as “vibes” estavam “off” — Vê se consegues chamar a Guarda.
— Estou a ligar ao advogado. Quando foi a última vez que ela atualizou o testamento?
Ah! Famílias! Será que consigo pedir ao cozinheiro uns ovos rotos?
— Mais razão para ninguém sair desta sala. O staff foi dismissed logo de manhã, pode ter ficado algum escondido.
— Ou então é um de nós — disse eu, os meus sonhos de peixinhos da horta a desvanecer.
O velhote parecia ter uma súbita vontade de voltar às quermesses. Ou estava a ter um especial espasmo.
Um relâmpago. A luz que se desliga. O trovão. O velhote deixou de se mexer. O Capitão salta na direção dele para lhe apalpar o pulso. Morto. E levantando um pouco mais a manga, os arranhões feitos pela filha.