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Gruta


1926, Serra da Estrela. Uma gruta. A longa estagnação tinha dado ao ar um peso insuportável. Era isso que eu dizia a mim mesmo durante as últimas horas para não pensar no que estou a respirar. A tocha dava o compasso de dança para as sombras naquele lugar húmido e claustrofóbico.
Tal como os vários túneis que tinha percorrido até ali, tudo naquela sala era cinzento granito com traços de madeira velha. A diferença vinha do cintilar metálico em cima das duas mesas, à esquerda e direita. No lintel que tinha acabado se atravessar, a inscrição VIRIATUS. Estou no sítio certo. Caminho e percebo que o não eram duas mesas mais sim uma única em U. Uma mesa de festejos. Ténues raios de luz caiam do teto. Na cabeceira da mesa, lá estava ele.
Os historiadores acreditam que Viriato tinha sido traído por alguém próximo. O esqueleto que vejo à minha frente, num túmulo com o seu nome, está vestido com armadura romana. O cálice na sua mão esquerda, a espada na direita, romanos. Traído? Não Ele tinha-se juntado ao Império Romano, integrado o seu povo nele.
A Sociedade de Geografia vai adorar isto. Ou talvez o José de Figueiredo queira algo para o Museu. Preciso de levar alguma prova. A paredes nuas dizem pouco, e a combinação da falta de oxigénio e dos fumos da tocha fazem com que cada respiração seja um pouco mais custosa do que a anterior, e sei que o ardor nos olhos só estava a começar.
Embrulho a espada e o cálice em pano e sigo para fora da cripta. Primeiro, ar fresco, depois civilização. E com o dinheiro da venda… Ando a namorar aquela Winchester 1897 do Williams. Ou talvez compre combustível para viajar. Ouvi falar de uma cidade perdida perto de Tebas.

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maio / 2022