300 palavras

Merceeiro


Pi. O ruído digital vinha do fundo, lá do fundo. Pi. Cada movimento dos meus braços faz aparecer uma linha nova no ecrã. Pi. Digo o total. Vai pagar com cartão. "Obrigado e bom dia." Acho que sorri. "Próximo!" O meu corpo sabe o que fazer, não preciso de pensar. Trabalho nesta mercearia há 12 anos. Começou por ser uma forma de pagar as contas enquanto pensava na vida. Soube bem receber os primeiros cheques, e depressa fiquei confortável na minha rotina.
Com este cliente termina a enchente em que o mundo sai do seu emprego e precisa de despachar umas compras a caminho de casa. É preciso colmatar as prateleiras. O que estará mais vazio será o vinho e a cerveja ("um copito ao jantar") os condimentos ("esqueci-me de comprar vinagre balsâmico, podes passar no super?") e os doces ("traz uma sobremesa"). No verão tenho que estar sempre a preencher os frigoríficos de bebidas, com o cuidado de puxar as mais frias para a frente. No inverno vendemos mais chocolates e chás, sob as luzes florescestes com o seu suave bzzzz. É uma vida pacata. Saio pelas portas da frente e este trabalho fica aqui, eu vou à minha vida.
Quando chego a casa vou consultar o PC do outro trabalho. Todos os meses pago, e bem, para que a minha atividade não deixe registos. Tenho várias mensagens, muitas deles serão trabalhos com preços demasiado baixos, ou os alvos são pobres coitados que tiveram o azar de se meter com pessoas más. Ignoro esses. Dá-me muito mais gozo procurar quem se acha invulnerável. Ah! Cá está. Leio a informação que vem anexada e procuro confirmação pelos meus meios. Sinto o calor que se espalha pelo meu corpo, a eletricidade em todas a terminações nervosas. O doce aroma da caça.

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junho / 2022