300 palavras

Em família


Os candeeiros a imitar o antigo, a pintura cuidada, eram os pequenos detalhes que distinguiam aquela casa das restantes na rua. “Entrada exclusiva a membros” estava escrito, em relevo dourado, ao lado da campainha. Eu não sou membro, mas trabalhei para não ser questionado. Entrei pela porta pesada e o ruído da rua desapareceu.
— Boa noite. — disse o rapaz na receção. Inclinei a cabeça em jeito de cumprimento. “Smile and nod” diriam os britânicos.
Não foi fácil adquirir uma farda militar usada em bom estado, mas não queria arriscar um disfarce barato ou algo mal feito. Naquela noite, a verossimilhança era fundamental.
A escadaria de madeira era coberta com um tapete e ladeada por paredes também elas de madeira e cobertas com quadros e tapeçarias. Enquanto subia os degraus senti o desconforto da gola. Não posso arriscar a que alguém me veja numa camara a ajustar.
— Bem-vindo senhor. Refresco? — Levantei a mão em forma de rejeita. Alguns acenos de cabeça, um ligeiro levantar de copo na minha direção. Tinha tido o cuidado de escolher insígnias que indicassem uma patente abaixo do esperado. Não tão baixa que a minha presença ali fosse estranhada nem tão alta que alguém quisesse falar comigo. Procurei uma abertura no corrimão da mezzanine. Em baixo, o círculo de pessoas já delineava a zona onde a cerimónia ia acontecer. E eu estava aqui. Meses de preparação. Anos de pesquisa. Tudo para este momento.
A roupa que vestia fora em tempos um uniforme para simbolizar pertença e estatuto. Pouco importa. Agora, marcava o meu subterfúgio e triunfo. O coração voltou a marcar passo e já sentia o suor por debaixo de todas aquelas camadas de algodão e lã.
— Senhoras e senhores. — a voz vinha do palco. Ia começar.

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maio / 2022