Gosto de histórias.

O Bater do Sino


Ding!
“Quatro”
Ding!
“Cinco”
Ding!
“Seis”
Nos últimos dias dava por si a contar o bater do sino que o acordava. Ou talvez ele já estivesse acordado. Aos 67 anos, Alberto já se tinha habituado à vida de reformado. Levantava-se às seis da manhã com o primeiro sino da aldeia. Uma fatia de paio tirada do barulhento frigorífico, e um naco de pão para quebrar o jejum enquanto ouvia as notícias, e depois seguia para a horta no topo da povoação. O corpo já não é o que era e à porta de casa, as duas bengalas esperavam para o acompanhar na viagem diária. A Maria já devia ter saído, sempre foi mais espevitada que ele.
Primeiro uma, depois a outra, a seguir um pé, e depois o outro. Este era o seu caminhar. Podia jurar que ainda ontem não lhe custava tanto andar, mas a cabeça também já não é o que era. Enquanto caminhava, cruzava-se com os seus conterrâneos. “Bom dia Sr Alberto.” “Então Ti Alberto? Como vai?” Bom dia, bom dia, vai-se andando. Apesar de ter passado uns anos fora, a trabalhar na Suíça, sentia que tinha sido sempre da terra. Tinha visto velhos morrer e crianças crescer, jovens a ir e a vir. Quando chegou à cerca de arame que marcava a sua horta, o sino já tinha marcado as sete e trinta. Ai ai. Não se lembrava de demorar tanto tempo. Quando era mais novo, fazia aquilo em dez minutos. A Maria é que nem vê-la.
Alfaces, tomates, uns pés de feijão verde, a horta não dava muito, mas sabia sempre bem comer algo que ele mesmo tinha cultivado. Uma rega ali, um jeito na terra acolá. Quando terminou, sentou-se num pequeno muro. Olhou para a aldeia ao fundo. Aquela sempre foi a sua casa. Por muito longe que tenha ido, sempre voltou à terra. A fome apertou, tirou o farnel que trazia ao ombro. Peixe com batata cozida que o Alcindo lhe tinha trazido. E ao limpar as beiças ao lenço depois da última garfada, o Sol já ia lá alto.
Pensou na última vez que tinha visto a Maria, a sua companhia de tantos anos. “Boa tarde Alberto, boa tarde. Foi bom almoço?” “Foi foi, é o que se arranja, enquanto a horta continuar a dar.” “Tem que ser, tem que ser.”
As velhas amigas amparavam-o de cada lado, e foi descendo. As pedras do caminho eram novas, mas não se lembrava de quando tinham sido postas. Lembrava-se de quando era de terra batida. “Boa tarde Ti Alberto! Hoje voltou tarde da horta.” Boa tarde menina, como tem passado? Seria a filha do Zé do Tractor? Ou já a neta?
Chegou a casa, o Sol já tocava o horizonte. Entrou em casa a pensar na Maria, e as saudades que tinha dela. As vezes lembrava-se, outras vezes esquecia-se. Ao fim de 86 anos desta vida, a cabeça já não é o que era. O fogão velho servia todas as noites para fazer o jantar do dia e o almoço do dia seguinte. E quando o Sol já não entrava pela janela, deitou-se ele também. E esperou que o sino voltasse a tocar.

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junho / 2015