Gosto de histórias.

Um Hotel Abandonado


  Parte 1

Vermelho.

A luz do semáforo iluminava montras e fachadas, criando sombras que esbatiam as formas.

Uma das saídas do largo onde estacionou cruzava com uma rua que, em hora de ponta, era bastante movimentada. Não tanto pela quantidade exagerada de carros, mas porque aquela estreita rua ligava o centro da cidade com um dos subúrbios. Quantos olhos fixavam aquela luz vermelha em frustração, todos os dias?

Verde.

Figuras amorfas mexeram-se. O compasso de um bailado numa noite de nevoeiro. Aquele semáforo era odiado todos os dias, mesmo que por pequenas doses, por breves momentos. Olhou para o relógio do carro alugado e confirmou no de pulso. À sua direita, para lá das filas de carros estacionados, ela conseguia ver os portões e a corrente que os prendia, tinha pago a um contacto local para substituir o aluquete por um novo e fazer chegar-lhe a chave.

Nenhum dos prédios em volta tinha luzes ligadas, a via era secundária o suficiente para não haver transeuntes por aquela hora, e os carros que a rodeavam no estacionamento, criando um padrão que todas as noites mudava, estavam silenciosos enquanto as rotinas dos donos ainda não precisavam deles. Exceto um, alguns lugares ao lado, com os vidros embaciados; os vultos que se mexiam lá dentro executavam o seu próprio bailado. Estiveram quietos durante umas horas, e começaram a mexer-se há poucos minutos.

Amarelo.

Uma das portas abriu-se e um homem de meia idade saiu e entrou para o lugar do condutor. O barulho do motor perturbou o silêncio da cidade e seguiu pelo sentido oposto ao da rua do semáforo. Finalmente.

O portão era dos antigos, cinco metros de altura, com pouca folga entre a ombreira. Ela tinha subir até à corrente para a abrir, e depois o empurrar aquele peso enorme. No carro estava sozinha, lá dentro estaria sozinha, o momento de permeio poderia trazer perguntas desagradáveis. Abriu a porta e caminhou em direção ao portão. O grito da velhas dobradiças era inevitável para criar a pequena nesga por onde conseguisse entrar.

O prédio não era apenas mais um naquela rua. Imponente, estava abandonado há algumas décadas e preso num lodo de custódia. A pouca atenção que recebia durante o dia envolvia um distraído "é uma pena que isto esteja assim" de quem passa. A existência daquela fachada era tão familiar, tão quotidiana, que há anos que a única segurança no portão da garagem era uma corrente. É certo que era uma corrente forte o suficiente para não puder ser cortada por uma ferramenta barata, e daí a necessidade do contacto local.

Fechou o portão atrás dela, trancou a corrente e respirou fundo. Escolha errada. Uma mistura de poeira do chão e pó do abandono tocou-lhe a garganta e a tosse rasgou o silêncio. Da mochila tirou uma mascara com filtros, uma lanterna e alguns papeis. Encostada ao portão ainda estava perto do suficiente da rua para ser ouvida, por isso aventurou-se pelo túnel. Alguns metros à frente uma claraboia deixava entrar uma luz pálida de luar, o último raio de luz que ela veria nas próximas horas. Admirou um pouco o que a rodeava. Antes do fecho, esta garagem recebia camiões com tudo o que era necessário para o negócio. Agora, existia apenas o vazio.

O clique da lanterna afastou as sombras que a rodeavam. O chão parecia terra compactada, ainda com algumas marcas de pneus. À sua volta umas colunas estruturais, várias pilhas de entulho e uma escadaria que subia desde o piso onde estava.

A lanterna cabia na mão esquerda, a direita segurava o mapa que ela tinha compilado a partir das várias plantas que encontrou, com o caminho planeado marcado a amarelo: uma escadaria ia desde a gare de mercadorias até à cave, o corredor no topo era ladeado pelo economato, cozinha, sala de refeições. Passando a porta de serviço estaria em frente à escadaria que passava pela receção e porta de entrada até ao 5º andar Aí teria que procurar pelo quarto 553. Fácil. Simples.

— Certo — murmurou.

Os pisos térreos tinham sido feitos em pedra, com tons de cinzento estéreis. Trabalhar todos os dias entre estas paredes, sem luz natural... Que vida...

As escadas terminavam numa porta. Fechadura de chave plana, com sinais de ferrugem e a porta era de aglomerado barato e deformado por anos de humidade. O barulho do pé-de-cabra foi engolido pelo vazio. O arrancar das dobradiças, os bocados a cair no chão, toda a violência daquele acto levantou ainda mais poeira. Ajustou o respirador. A nuvem que se formou foi aspirada para a escuridão dentro do corredor, e o ar que esteve tanto tempo imperturbado misturou-se com o exterior.

A luz da lanterna caiu sobre um corredor mais longo do que ela esperava, e com paredes várias vezes a altura dela. Ao longo do corredor, grupos de quatro ou cinco degraus amenizavam a inclinação das fundações. As plantas ancestrais que ela tinha encontrado diziam-lhe que enquanto estavam a cavar para as caves encontraram blocos enormes de granito e em vez de dinamitarem no centro da cidade, aproveitaram o espaço que conseguiram.

Cada vez que pousava o pé conseguia sentir a camada de pó que cobria todo o chão. Todo aquele trabalho era diferente do que ela costumava fazer. Um hotel abandonado no meio de uma cidade moribunda. Qualquer rufião podia ter feito aquilo. A oferta que ela tinha recebido, e mais do que isso, o facto de a terem procurado a ela fez disparar uma série de alarmes. Mas ela gostava de coisas bonitas que costumavam ter o defeito de serem caras. Deu um passo em frente.

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  Parte 2

O prédio estava numa encosta de tal forma que os dois pisos de baixo, a garagem por onde tinha entrado e cave onde estava agora, estavam "enterrados" na preservativade quem entrava pela porta principal. Dois dos quatro lados abaixo da linha de terra. Um meio túmulo.

Dentro do corredor, parou. As paredes sólidas isolavam o mundo lá fora, o mundo real, daquele interior. Ao fim de alguns metros, duas portas. À sua esquerda estaria a cozinha, e à sua direita ouviu um estalo, como madeira que finalmente cedeu. Naquela cave, os únicos elementos de madeira seriam as portas, tudo o resto seria de pedra e cimento. Apontou a lanterna para ver melhor. A da cozinha estava fechada, a do economato entreaberta, poeira rodopiando entre a abertura das porta dupla. Parou, aguardou que o silêncio fosse interrompido. No feixe da lanterna o remoinho ia baixando. Nada. Acreditando nas plantas, e acreditando que não tinham mudado, ali dentro está o chaveiro. O protesto das dobradiças ecoou pelo vazio, batendo e ressoando por todas as paredes e cantos. Do outro lado da porta, um balcão. Do outro lado do balcão, prateleiras até perder a luz. Dois passos em frente e estava no economato, o armazém onde o hotel guardava todos os bens de uso no dia a dia. O teto estava a uns dez metros e as prateleiras que via chegavam ao topo. À direita, o balcão continuava para lá do deu ângulo de visão, guiando o olho para uma ampla secretária com uma velha cadeira do outro lado. O chaveiro estaria para lá da secretária, ao fundo. Aqui, o chão era feito de mosaicos de vinil e abafava um pouco os passos. Contornando o balcão, os passos em vinil perderam-se, trocando-se por agulhas em papel. Parou, e o ruído parou com ela. O vazio, negro e silencio. Ela nunca acreditou em fantasmas, acreditou em dinheiro, nos €€ na conta dela. Tinha medo da estrutura estar no limite e o peso dela ser o que ia destruir, tinha medo do amianto que poderia estar ali. Fantasmas não existem. Se bem que quando som recomeçou enquanto ela estava quieta, começou a questionar várias premissas.

O sangue faz barulho e parecia que todo o dela lhe corria pelos ouvidos, afogando o exterior. Controlar a respiração. Inspira profundamente, quando os pulmões estiverem cheios inspira o pouco mais e exala. Outra vez. Respira fundo, mais aquele bocadinho, expira. O rumorejar do sangue dentro do seu crânio dissipou e o ruído também. Passou ao lado da secretária, ainda com alguns papeis e bugigangas de escritório, virou à esquerda e entrou pelas fileiras de estantes. Algumas delas tinham alguns restos amorfos mas acima de tudo tinham pó. Nem as aranhas queriam aquela vizinhança. Ali estariam organizados e catalogados parte dos materiais necessários para o funcionamento do hotel. Desde a comida enlatada ou seca, o material de limpeza. Aquele hotel era antigo o suficiente para usar salgadeiras em vez de frigoríficos. Estariam aqui ou na cozinha. As prateleiras em si eram colunas de ferro com furos onde estavam aparafusadas as placas retangulares de aglomerado de madeira ou contraplacado. Relativamente modernas e baratas, deveriam ser já dos últimos anos em que o hotel esteve aberto. Ela conseguia imaginar o homem de camisa e guarda-mangas a caminhar até um daqueles pontos para agarrar o produto que tinha sido pedido para depois o registar no livro de ponto. O ruído voltou.

Parecia vir de ambas as pontas do corredor. Um barulho de metal a bater em metal. Nada grande, quase maquinaria de precisão. Quase...

"...uma máquina de escrever"

Pé ante pé, como quem não quer acordar os pais, caminhou por onde tinha vindo. Se alguém estivesse a escrever na secretária, isto pô-la-ia por detrás, poderia ver sem ser vista. A menos que os fantasmas tenham olhos na parte de trás da cabeça. Ou que consigam rodar os olhos 180º. A cabeça deve ser translucida, devem conseguir ver através dela.

Encostou-se, sem tocar, a uma coluna, respirou fundo tentando não fazer barulho e olhou apenas um pouco. Uma suave luz amarela saia do candeeiro apesar da lâmpada não existir. Sentada na secretária uma figura dactilografava, parando para consultar notas inexistentes ao lado. Perdeu-se nos contronos da camisa, no vislumbre ocasional do canto da Olivetti. Por vezes levava a mão à cabeça ou agarrava uma folha, também ela translúcida, para a analisar melhor. Conseguia então perceber-se que a mão direita segurava um cigarro. A luminosidade não vinha da lâmpada apagada, mas sim da própria figura e dos objetos que a rodeavam. A cadeira parecia ser daquelas com uma coluna que permitia rodas, mas terminava na escuridão. A luz não era só da figura, mas era a figura que a dava ao que estava mais perto dele.

Parecia estar focado no seu trabalho, seja qual for. Ela rodou nos calcanhares e caminhou em direção ao chaveiro. Uma caixa de madeira estava fixa na parede, semiaberta. Levou a mão à portinhola e como todas as portas que tinha encontrado naquele lugar, esta queixou-se de ser forçada a mexer. Aguardou em silencio. Taq taq taq, o ruido continuava, lá ao longe. Chaves. "Armário bricolage" "Escritório C" algumas juntas numa mesma argola, outras soltas, todas elas com ar de ruidosas. Tirou uma foto com o telemóvel e agarrou em todas, tentando segurar de forma a que não tilintassem.

Caminhou por entre as estantes, um caminho agora mais longo, até ao ponto onde seria vista desde a secretária. Mais um momento. Agachou-se e caminhou lentamente. Taq taq taq. Já no corredor, o som parecia ainda mais longe, e a luminosidade já não era visível.

Quando era criança tinha medo de fantasmas. O mortos que por cá andavam. Depois viu o que as pessoas faziam. Viu uns a sofrer e outros a rir disso. E passou a ter medo dos vivos. Naquele momento, no meio de um vácuo de civilização e modernidade, teve que compartimentalizar a sua experiência e seguir caminho. Aqueles Louboutin não se pagam sozinhos.

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  Parte 3

Mais um lanço de degraus, um corredor à sua esquerda e em frente a porta que, segundo as fotos que tinha adquirido, tinha uma placa com a palavra "Serviço" do outro lado. Tocou com o pé de cabra e o ligeiro ceder indicava que a porta ainda se mexia. O manípulo não rodava, mas não era problema. Em vez de um estrondo, a madeira enfraquecida simplesmente desfez-se como casca de árvore. Uma casca forçada com um pé de cabra de titânio. Cobriu a cara com o lenço que trazia ao pescoço. Do outro lado, as paredes de bege cimento tinham sido substituídas por madeira com restos de grandiosidade. O chão, carpetado, lançava uma neblina de detritos com cada passo.

Uns passos à frente começava a escadaria. Testou o primeiro degrau. Silêncio. Primeiro com pouco e depois com um pouco mais peso. Silêncio. Esta parte da escadaria ainda tinha um suporte sólido por baixo. Pé ante pé, testando cada degrau, agora com o ranger da madeira. Pé, ante pé, pensando mentalmente na distância a que estava do solo ou qual seria o último degrau seguro. Durante o planeamento surgiu a ideia da escadaria de madeira, assim como vários dos patamares, terem apodrecido com as décadas de abandono à humidade e bichos. "Certamente aguenta." Agora tinha menos certamente.

Foi dar ao átrio. Espaçoso, com um tapete gigantesco de pêlo espesso para aconchegar o fim do caminho de quem ali entrava. A porta principal era ladeada por cortinas que ainda sentiam a brisa que entrava da rua. Ar fresco, ou o mais parecido possível, que empurrava a poeira para os cantos, como se um gigante tivesse soprado para ver melhor o brasão da cidade no tapete que cobria o chão. Entre isto e o degrau onde estava, um corredor atravessava o edifício.

Durante décadas, milhares se não milhões de pessoas passaram por ali. Cada um com os seus motivos, as suas memórias. Vivências diferentes que levaram a que os caminhos se cruzassem ali. Este hotel tinha visto várias gerações de viajantes. Hábitos e costumes dos hóspedes foram mudando, formação e funções dos trabalhadores mudaram com o tempo. A tecnologia e decoração evoluíram.

Caminhou pelo corredor que a levaria ao restaurante. Durante as suas pesquisas, as imagens mais comuns eram fotos daquela vedeta. Uma das paredes era um semicírculo de vidro e ferro forjado com a correspondente abobada. A vista era para a piscina, não muito grande, coberta de ladrilhos de várias tonalidades de azul, tentando dar o infinito aquele charco de humanidade. O torno da piscina era de tijolo vermelho vidrado, e em torno disso um pequeno jardim com arbustos de flor e fruto. Nas fotos, quase todas a preto e branco, faziam falta os soldados de cartas da Rainha de Copas. Mas isso eram fotos.

Enquanto caminhava pelo corredor e se aproximava das portas duplas de vidro via as sombras do restaurante a bailar do outro lado. Tempo ou arte tinham deformado o vidro o que permitia à luz as suas travessuras. Mais perto percebeu que nem um nem outro, o vidro era límpido e imaculado.

Dentro do restaurante o luar iluminava parte das mesas e algumas delas, mais expostas aos elementos, mostravam os estragos. Pela redoma de vidro conseguia ver a noite límpida. Numa das paredes podia ver os pratos e talheres e linhos. Estranho estarem a vista dos clientes. Tal como na entrada, o chão era feito de tacos pequenos dispostos num padrão alternado. As mesas, também de madeira, eram simples, sem padrões, estariam sempre cobertas por toalhas de mesa. De costas para a montra, uma mesa corrida. O último jantar devia ter convidados de honra, talvez um casamento. A copa estava ali perto. Circundou a mesa e aproximou-se da janela. Conseguia ver um canto de um prédio com uma luz acesa. Se alguém olhasse na sua direção, achariam-na uma aparição.

Uma bolha de luz lembrou-a dos carros que passavam trazendo-a de volta ao presente e à tarefa. Retornou em direção à escadaria. Ao fundo do corredor uma luz chamou a atenção. Não a luz fraca de há pouco com o funcionário Gasparzinho mas uma luz quente. De uma lareira. Vinha de onde seria a sala de espera. O corredor de volta punha-a de frente para as portas duplas, abertas, de onde vinha o que quer que fosse aquilo. Desligou a lanterna e pela segunda vez caminhou para não ser ouvida no meio daquele abandono

"Só custa a primeira." Pensou, tentando que o seu ritmo cardíaco voltasse.

Com cada passo dado, a luz crescia mais. Assim como as vozes. Pelo menos, pareciam vozes. Não reconhecia o idioma, as palavras ficavam mesmo à beira da sua perceção, como aquela memória que teima em não entrar em cena no palco da mente. Agora, a escadaria estava a meio caminho entre ela e a ombreira da porta. Conseguia ver o movimento das sombras e luzes. Não só da lareira que estava fora do campo de visão, mas também vultos que se moviam. A qualquer momento ela podia ser vista. Apressou um tudo-nada o caminhar até à escadaria que a levaria aos andares de cima.

Primeiro andar. Portas uniformes. O corredor em tudo igual ao de baixo, talvez um pouco mais curto e simétrico. Segundo andar. Alguns degraus mais sólidos do que outros, mais sonoros do que outros. Aqui, ao contrário dos restantes, as janelas não estavam entaipadas. Terceiro andar. Mais portas. Quarto andar. Mais frio, vento. Algures uma janela estaria aberta. Ou partida. E a caminho do quinto, um degrau mais silencioso, um passo menos leve e ela sentiu-se a cair.

Rodou o tronco e lançou as mãos ao corrimão. Conseguiu agarrar-se com a esquerda, a direita escorregou e o corpo balançou para um lado. Balançou e agarrou o patamar do andar. A adrenalina manteve-se, pontapeou o ar e conseguiu subir. Rastejou, deitou-se, esperou que o mundo voltasse ao lugar. Longe, os restos do que era a escada caíram.

O lenço que lhe tapava a cara ficou cem vezes mais pesado que antes. Os olhos ardiam. Sentia algo molhado nas mãos. Água, sangue, suor. Não conseguia abrir os olhos. A tosse tomou conta do peito. A garganta ardia. Mais tosse. O lenço que protegia a cara não a deixava respirar.

Arranha o lenço.

A bílis subiu.

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  Parte 4

O número que ela tinha ouvido era surpreendentemente alto, suspeito. Quase a fez rejeitar o trabalho. Quase.

— É um objeto pequeno. Não é de cristal mas mesmo assim tem alguma fragilidade. Não deve pesar mais de duzentas gramas.

Ela não olhou para os dois homens de fato sentados do outro lado da mesa sem deixar de apreciar a quase infinita paisagem daquela varanda. O chalé onde estavam tinha sido construido no pico de uma montanha que permitia uma aparente distância da civilização, dos plebeus, sem as dificuldades do mundo real naquelas zonas como o ar rarefeito temperaturas desconfortáveis. Aquele perfeito meio-termo de "quero aventura sem estar longe de um banho turco".

— E o objeto é?

— Segredo. — disse o segundo homem. A face não traiu emoção, mas aquela chico-espertisse não tinha saído do vazio.

— Não aceito trabalhos às cegas. — Levantou-se e foi interrompida.

— Uma figura, tamanho de um palmo. Em espuma do mar. Acreditamos que tem uma face humana esculpida. Mais do que isso não sabemos. — disse o primeiro, tomando a palavra sem reagir.

Sentou-se, recostou-se, de novo no cadeirão. O chá tinha perdido o fumegar.

— Sepiolite, num local húmido, durante anos — disse ela — não estará em condições.

— Acreditamos que foi devidamente acondicionado. Mesmo que não esteja, pedimos que traga o que encontrar.

Aquelas figuras não eram o cliente, eram apenas mediadores de meia-idade, meia estatura, meia tudo. Quase gémeos e indistinguíveis no meio de uma multidão. Pior para ela, que já tinha dificuldade em memorizar caras.

— Podemos contar com a sua ajuda?

Esta era a coisa mais middle management que podia ter sido dita.

"Porque é que acreditam que ainda lá está?" Era o que devia ter perguntado. "E, em estando lá, como é que convenço quem ou o que o acondicionou devidamente para que me deixe levá-lo?"

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  Parte 5

Um único andar. Só faltava isso. Se bem que o andar de cima podia cair e vir até ela. Aí faltaria menos. O corpo queixou-se enquanto tentou mover os pés e as mãos. Ainda se mexiam. Afastou a cara da pequena poça de vómito e ajoelhou-se. Sangrara o suficiente do braço para a mão ficar vermelha. A camisola estava estragada e o resto da roupa não teria melhor destino.

Inspira fundo. Segura. Expira. Dentro pelo nariz, sentia o latejar do pulso, fora pela boca. Em breve, a adrenalina iria subsumir e sentiria, para além do braço, as restantes surpresas. Levantou-se. Com a mão esquerda bateu a roupa para tirar o pó. Má ideia. A nuvem que se formou entrou pelo nariz e olhos.

Desceu a escadaria. Do quarto andar para o terceiro. As mesmas portas. Se tivesse partido algo já teria percebido. Para o segundo. A mesmas portas. Depois daquele estrondo não ouvia ranger de madeiras, o edifício parecia ter-se contentado com aquele saque. Para o primeiro. Escuridão. Talvez na receção encontrasse algo para enfaixar o braço que não fossem ligaduras de rádio.

Aqui o chão parecia ser sólido excepto os tacos soltos. A luz e o som da sala de espera tinha desaparecido e percebeu naquele momento a leve luz que vinha das fendas das janelas que não tinham sido tapadas. Caminhou até à receção. Testou o balcão, não que o resultado mudasse alguma coisa, e saltou por cima. Uma claraboia permitia leves restos da luz de um candeeiro da rua banhar a pequena divisão. A lanterna percorreu as paredes e as duas mesas assim como a parte interior do balcão. Do outro lado do balcão tinha visto o luxo de tempos idos. Deste lado a visão era mais espartana, como o que tinha visto nos andares de baixo. Abriu gavetas e portas até encontrar uma caixa de primeiros socorros. Álcool etílico e ligaduras. Ouvia o ruído da sala de espera e a luz que banhava o corredor tinha voltado também. Parou para pensar o que fazer.

Passeou os olhos pelo espaço que a rodeava. Organizadores de diferentes formatos e em variadas posições, algum material de escritório, papeis com diferentes cabeçalhos, em diferentes estados de decomposição. Uma das paredes era uma mistura de partes iguais humidade e tinta descamada.

Subir a escadaria estava fora de questão.

Rodou um pouco na cadeira. Daqui conseguia ver cortinas gastas que separariam os clientes da área de serviço, molduras estragadas pelo tempo com papéis ou fotos. Talvez conseguisse escalar o poço do elevador. Talvez exista alguma escadaria que não estivesse marcada nas plantas que tinha estudado. Debaixo do balcão, encostado à parede, um livro que parecia especial. Mais perto percebeu que era de capa dura, talvez couro, com padrões em relevo dourados e verde. Livro de convidados. Abriu e folheou.

Caligrafias diferentes. Entradas e saídas, assinaturas, dedicatórias. Numa das páginas encontrou uma reserva para o quarto que procurava. 553. Um doutor que "fica sempre no mesmo quarto cada vez que visita a cidade" Algumas páginas eram mais bolor do que papel e ilegíveis, mas encontrou detalhes mundanos de preferências alimentares ou cancelamentos por doença, uma ou outra nota de persona non grata e várias que pediam para depositar valores no cofre do casino. Segurança extra. Algures ali podiam estar cópias das chaves para os quartos, com sorte até a chave mestra dos cofres. O teto e sancas eram de madeira escura, carvalho envelhecido talvez, e conseguia perceber alguns furos que em tempos deviam segurar os diversos candeeiros que foram existindo. Uma prateleira alta segurava o que devia ser o arquivo morto e no canto, uma caixa com a etiqueta "obras renovação telhado." Levantou-se. Teve que se pôr em cima de uma das mesas para agarrar a caixa e, com cuidado para não ser banhada por pó e insetos mortos, trouxe a caixa até ao chão.

O último andar foi das últimas se não a última e mais ambiciosa adição ao hotel. Uma tentativa de modernizar que acabou por destruir o que restava da imagem arquitetónica. Ali, numa série de plantas emendadas e remendadas, com anexos sobre preocupações de segurança, estava um forçar à vida algo que há muito estava morto. Um conjunto de folhas, seguras por um aglomerado de agrafos e clipes, indicava a adição de escadas de emergência para facilitar a evacuação. Teria que descer, passar a porta que se tinha desfeito com o pé de cabra e seguir pelas escadas de serviço. Eram uma adição mais tardia, talvez estivessem em melhores condições. Saltou o balcão, passou o corredor com cuidado. Desceu a escadaria e também ali se ouvia o barulho de vozes e vidas.

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  Parte 6

O abrir da porta fez o ar correr de dentro para fora. Um ar frio que se misturou com o estagnado e deu lugar a que algo de dentro saísse. Não abria por completo. O guinchar metálico das dobradiças preencheu a noite como um alarme contra intrusos. Ou contra fugas. O corrimão, metálico recoberto a vinil polido era de uma cor que parecia absorver a pouca vitalidade do ar que a rodeava. Cinzento sobre cinza com toques de antracite. As maravilhas do utilitarismo. As escadas quadradas não permitiam duas pessoas lado a lado enquanto rodavam sobre si mesmas. Sem o ruído que tinha acompanhado os seus passos até agora, subiu. Rés do chão. O ar quieto era por vezes perturbado por uma brisa. Primeiro andar. Um pouco mais fácil de respirar, mas o pó de décadas ainda se fazia sentir ali. As paredes ainda cinzentas. O corrimão ainda de vinil. O balaústre ainda de metal. Segundo andar. As correias da mochila faziam-se notar, ajustou-as. Terceiro andar. Uma suave luz tocou a mão. Uma qualquer claraboia vertia luar naquele buraco. Uma distância infinita do mundo. Mesmo assim, o único som vinha das suas botas no cimento e da respiração. Quarto andar. Naquela cota estava o buraco que lhe tinha deixado a recordação no braço. Quinto andar. Experimentou a maçaneta, abriu a porta e percebeu a razão das escadas terem caído. Todo o soalho estava podre, a cair. Parecia partir de um dos quartos na direita, com o chão e ombreira negros. O teto em cima estava relativamente imaculado. E acima desse teto, o salão de jogos. A última adição estrutural, os jornais que ela tinha encontrado sobre a altura do fecho diziam que teria sido a causa da falência do dono, se bem que os detalhes eram incertos. Nestes últimos lanços de escaldas, o luar era um pouco mais visível e o ar um pouco mais leve. O patamar em que estava permitia que ela se apoiasse no corrimão como se estivesse numa varanda, olhando para a escuridão que ocultava as escadas que tinha subido.

Desligou a lanterna, fechou os olhos e mergulhou no que a rodeava. Para lá do desconforto do braço, da mochila, ela sentiu a enorme distância ao resto da humanidade e ao pulsar da civilização. Longe, lá longe, a sobreposição de várias sonoridades. Campainhas e sintetizadores e instrumentos musicais passados por um velho alto-falante de feira, o uso de anos a distorcer a melodia. Algumas quase vozes. Todo este ruído vinha da porta.

Rodou nos calcanhares, agarrada ao esguio balaústre. Fixou a porta como se conseguisse ver a origem do som e depois olhou para cima. O luar vinha não de uma claraboia horizontal mas de janelos verticais que ficavam imediatamente para lá do que ela conseguia ver. O som não vinha de lá. Sentia-se senga. Não era possível que de lá viesse, mas vir de onde vem não era muito mais verossímil. Aproximou-se da porta, quase sem respirar. Conseguia perceber que ela estava abaulada, as pontas do lado da maçaneta encurvadas para dentro. A porta estava naquela posição, apoiada no trinco, há muitos anos, até ficar deformada. Rodar a maçaneta, se fosse possível, envolvia a possibilidade de colapsar a iminente deformação da porta, abrindo-a sem controlo e sem retorno.

Pondo-se de lado para a porta, respirou fundo, agarrou a maçaneta e deixou de ver.

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  Parte 7

Enquanto tapava os olhos a tentar que não derretessem, os ruídos tornaram-se mais distintos. As vozes, mais intenções do que palavras, as diversas campinhas e sinos e chocalhos. Quando a claridade se torna menos dolorosa ela está numa sala preenchida com máquinas e mesas de jogo. Uma figura de fato e gravata gesticulou com a mão para uma pequena mesa. Nela, fichas circulares e retangulares de baquelite. O corpo das fichas era de um castanho translúcido com pequenos flocos dourados reluzentes. Na face de cada uma, caligrafado a tinta branca, diferentes valores numéricos. Agarrou-as e a figura moveu o braço para a sala, dando-lhe as boas-vindas. A luz difusa escondia as paredes; o ruído mecânico misturado com o eletrónico que se misturava com a eufonia de alegrias e zangas e tristezas. De permeio, o tilintar de copos e sapatos surdos contra a carpete de outrora. Uns passos adiante, outra figura em tudo igual à primeira aguardava, olhando para a sala. Ou talvez para ela, era difícil focar os traços da sua face.

Com cada passo que dava conseguia perceber um pouco mais das mesas. O forro de cores em tempos uniformes. O barulho cresceu, as vozes carregavam um pouco mais do perder e do ganhar e de tudo o que era jogado ali. Caminhou até a mesa mais próxima. Na roleta os reflexos de luz davam movimento à face que certamente estava imóvel há anos. Era só a luz. Em contra fluxo, um foco luminoso lembrava a bola. Tiq taq toq. A bola parou e ela também. Da sombra do crupiê um ruído impercetível e voz e contra voz da vitória que não é suficiente e da perda que liberta. Vultos que surgiam e desvaneciam na grelha com o rodar e parar da bola.

"Rien ne va plus."

Olhou para as fichas que tinha na mão. Reparou que as denominações maiores tinham mais dos flocos dourados. Ouro? Seguiu para outra mesa. Aqui estavam três lugares ocupados. O dealer tinha duas cartas, cada um dos lugares ao seu lado duas ou três. Blackjack. A aparição ao seu lado direito estava debruçada sobre as suas cartas, uma pluma de fumo saída do que parecia ser a mão que apoiava a cabeça. À sua esquerda o vulto conversava com alguém atrás e do lado de lá estava encostado na cadeira, com os braços cruzados. O burburinho marcou o fim da ronda e o início da seguinte. "Eu sei jogar ao Vinte-e-um" pensou. O felpo retia algumas das marcações que teve em tempos. Agora eram as slot machines que chamavam.

Não conseguia ver as paredes. Cortinas pesadas dirigiam os jogadores, e a ela, para a atração principal. No centro (ou num canto?) da parede, numa plataforma elevada, uma roda gigante. Erguida, com um foco de luz que força o olhar para a tranche do topo. Enquanto rodava, diferentes marcas e cores passavam pelo foco, quando parava, sons de desilusão. Enquanto rodava, várias figuras olhavam para cima.

— O prémio está a acumular há meses.

— Quanto?

— O suficiente. Mais do que o suficiente.

O rodar, um abrandar impercetível até o parar que levava de novo aos sons de desilusão. O rodar voltava. "O prémio está a acumular há meses." "Quanto?" "O suficiente." O rodar, o abrandar, o parar.

As fichas que tinha, ainda, na mão, depositou na mesa. A roda rodou, surda. Rodar, abrandar, parar, desta vez, celebratório. Ela ganhou. E a luz, as figuras que a rodeavam, desvaneceram. As fichas, agora infinitamente mais gastas pelo tempo do que pelo uso, estavam onde as tinha deixado. Um estalido metálico que termina a hipnose e puxou o seu olhar para a parede, um recanto oculto por farrapos que em tempos teriam sido uma tapeçaria. E como que acordar depois de um sonho, a luz desvaneceu-se e ela estava numa sala banhada pelo luar que escorria pela claraboia. Os seus ouvidos habituaram-se ao novo silêncio que se tinha abatido sobre a sala. Caminhou em direção à fonte do ruído. Um cofre estava aberto, a ferrugem exterior em contraste com o interior preservado. E dentro, um pequeno embrulho. Uma pequena figura. Uma face barbuda parecia fitar quem a segurava. Estava na hora de sair. Tirou da sacola a caixa almofadada e colocou a figura com carinho. Ia pagar muitas contas e muitas prendas de si para si.

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março / 2018