Parte 1
Vermelho.
A luz do semáforo iluminava montras e fachadas, criando sombras que esbatiam as formas.
Uma das saídas do largo onde estacionou cruzava com uma rua que, em hora de ponta, era bastante movimentada. Não tanto pela quantidade exagerada de carros, mas porque aquela estreita rua ligava o centro da cidade com um dos subúrbios. Quantos olhos fixavam aquela luz vermelha em frustração, todos os dias?
Verde.
Figuras amorfas mexeram-se. O compasso de um bailado numa noite de nevoeiro. Aquele semáforo era odiado todos os dias, mesmo que por pequenas doses, por breves momentos. Olhou para o relógio do carro alugado e confirmou no de pulso. À sua direita, para lá das filas de carros estacionados, ela conseguia ver os portões e a corrente que os prendia, tinha pago a um contacto local para substituir o aluquete por um novo e fazer chegar-lhe a chave.
Nenhum dos prédios em volta tinha luzes ligadas, a via era secundária o suficiente para não haver transeuntes por aquela hora, e os carros que a rodeavam no estacionamento, criando um padrão que todas as noites mudava, estavam silenciosos enquanto as rotinas dos donos ainda não precisavam deles. Exceto um, alguns lugares ao lado, com os vidros embaciados; os vultos que se mexiam lá dentro executavam o seu próprio bailado. Estiveram quietos durante umas horas, e começaram a mexer-se há poucos minutos.
Amarelo.
Uma das portas abriu-se e um homem de meia idade saiu e entrou para o lugar do condutor. O barulho do motor perturbou o silêncio da cidade e seguiu pelo sentido oposto ao da rua do semáforo. Finalmente.
O portão era dos antigos, cinco metros de altura, com pouca folga entre a ombreira. Ela tinha subir até à corrente para a abrir, e depois o empurrar aquele peso enorme. No carro estava sozinha, lá dentro estaria sozinha, o momento de permeio poderia trazer perguntas desagradáveis. Abriu a porta e caminhou em direção ao portão. O grito da velhas dobradiças era inevitável para criar a pequena nesga por onde conseguisse entrar.
O prédio não era apenas mais um naquela rua. Imponente, estava abandonado há algumas décadas e preso num lodo de custódia. A pouca atenção que recebia durante o dia envolvia um distraído "é uma pena que isto esteja assim" de quem passa. A existência daquela fachada era tão familiar, tão quotidiana, que há anos que a única segurança no portão da garagem era uma corrente. É certo que era uma corrente forte o suficiente para não puder ser cortada por uma ferramenta barata, e daí a necessidade do contacto local.
Fechou o portão atrás dela, trancou a corrente e respirou fundo. Escolha errada. Uma mistura de poeira do chão e pó do abandono tocou-lhe a garganta e a tosse rasgou o silêncio. Da mochila tirou uma mascara com filtros, uma lanterna e alguns papeis. Encostada ao portão ainda estava perto do suficiente da rua para ser ouvida, por isso aventurou-se pelo túnel. Alguns metros à frente uma claraboia deixava entrar uma luz pálida de luar, o último raio de luz que ela veria nas próximas horas. Admirou um pouco o que a rodeava. Antes do fecho, esta garagem recebia camiões com tudo o que era necessário para o negócio. Agora, existia apenas o vazio.
O clique da lanterna afastou as sombras que a rodeavam. O chão parecia terra compactada, ainda com algumas marcas de pneus. À sua volta umas colunas estruturais, várias pilhas de entulho e uma escadaria que subia desde o piso onde estava.
A lanterna cabia na mão esquerda, a direita segurava o mapa que ela tinha compilado a partir das várias plantas que encontrou, com o caminho planeado marcado a amarelo: uma escadaria ia desde a gare de mercadorias até à cave, o corredor no topo era ladeado pelo economato, cozinha, sala de refeições. Passando a porta de serviço estaria em frente à escadaria que passava pela receção e porta de entrada até ao 5º andar Aí teria que procurar pelo quarto 553. Fácil. Simples.
— Certo — murmurou.
Os pisos térreos tinham sido feitos em pedra, com tons de cinzento estéreis. Trabalhar todos os dias entre estas paredes, sem luz natural... Que vida...
As escadas terminavam numa porta. Fechadura de chave plana, com sinais de ferrugem e a porta era de aglomerado barato e deformado por anos de humidade. O barulho do pé-de-cabra foi engolido pelo vazio. O arrancar das dobradiças, os bocados a cair no chão, toda a violência daquele acto levantou ainda mais poeira. Ajustou o respirador. A nuvem que se formou foi aspirada para a escuridão dentro do corredor, e o ar que esteve tanto tempo imperturbado misturou-se com o exterior.
A luz da lanterna caiu sobre um corredor mais longo do que ela esperava, e com paredes várias vezes a altura dela. Ao longo do corredor, grupos de quatro ou cinco degraus amenizavam a inclinação das fundações. As plantas ancestrais que ela tinha encontrado diziam-lhe que enquanto estavam a cavar para as caves encontraram blocos enormes de granito e em vez de dinamitarem no centro da cidade, aproveitaram o espaço que conseguiram.
Cada vez que pousava o pé conseguia sentir a camada de pó que cobria todo o chão. Todo aquele trabalho era diferente do que ela costumava fazer. Um hotel abandonado no meio de uma cidade moribunda. Qualquer rufião podia ter feito aquilo. A oferta que ela tinha recebido, e mais do que isso, o facto de a terem procurado a ela fez disparar uma série de alarmes. Mas ela gostava de coisas bonitas que costumavam ter o defeito de serem caras. Deu um passo em frente.