A minha mente: textos sobre a forma como encaro e lido com a minha existência

A Minha Depressão

A Minha Peça Estragada

O Meu Dia a Dia

O Meu Escolher

A Minha Depressão


Dois jovens peixes nadavam rio acima quando se cruzaram com um peixe mais velho que os cumprimentou com “Bom dia rapazes! A água está fantástica não?” Quando continuaram o seu caminho, um dos jovens pergunta ao outro “o que raio é ‘água’?” Estas palavras foram ditas por David Foster Wallace em 2005 no seu discurso “This is Water”1. Uma das ideias que elas transmitem é que as coisas mais óbvias muitas vezes são as mais difíceis de explicar. Há coisas tão imiscuídas na nossa existência que nem percebemos que são separadas de nós. O meu nome é irrelevante, o que importa é que faço parte dos 10% da população portuguesa que se estima que sofra de depressão2. Esta história de Wallace é uma ótima forma de explicar a minha relação com a minha condição.

Uma experiência comum no meu dia a dia é eu expressar que tenho pensado em fazer algo (viajar a algum sitio, ler um dado livro, participar numa atividade) e quando me perguntam porque nunca o fiz ou porque não o faço agora, muitas vezes a minha resposta é “não sei”. A pergunta seguinte envolve a impossibilidade de “não saber” e eu tento explicar o que sinto. Enquanto isto, já consigo adivinhar o que vem a seguir, independentemente das minhas palavras. “Já experimentaste isto / aquilo?” ou “precisas é de arranjar uma namorada / ir para a tropa / trabalhar a sério”. O que eu tento explicar é que uma das manifestações da minha depressão é a falta de decisão. Hesito em “fazer coisas” porque não há nada que eu “queira fazer”. Há toda uma lista de coisas que eu “devia fazer”.

Quando não temos aquela luzinha indicadora de “eu gosto disto” ou “isto traz-me alegria, prazer” é difícil ter interesse em fazer coisas. Porque tudo parece uma lista de supermercado. Um dia passado assim é vazio, mais do que um dia assim faz com que percamos noção do tempo. Eventualmente, todos os dias são iguais, os meses passam, sem diferenças. Um dia é igual ao outro, igual ao seguinte, e acumulam-se sem mudança, sem evolução. E o mundo segue sem nós.

Eu percebo que seja difícil perceber esta falta de “gostar”. Também para mim foi surpreendente ver, ao vivo e a cores, alguém a demonstrar a antítese da minha apatia. Um “isto parece interessante” teve como resposta “vamos a isso” em vez do meu usual “P’ra quê? Dá trabalho. É uma perda de tempo.” Parece pouco, mas valeu muito.

Como é que explicamos algo que sempre fez parte de nós? É ainda mais difícil quando o interlocutor não tem essa experiência (ou pior, quando acha que tem). Como é que explicamos cor a alguém que nasce invisual?

Não tive um acontecimento trágico na vida, a minha infância foi feliz q.b. Alguns amores, muita aprendizagem, e um caminho com poucas questões. Aos 18 anos saí de casa dos pais para estudar. A ideia era fazer um curso que desse para carreira (já diziam os Rio Grande “o rapaz estuda nos computadores / dizem que é um emprego com saída”). Acabar o curso, casar, quem casa quer casa e carro, dois ou três filhos, subir na carreira, póquer aos sábados, Algarve no verão. Nada disso se concretizou.

Não foram os desgostos amorosos, nem a rápida deterioração da minha prestação académica, nem o suicídio de uma amiga. Ou talvez tenha sido tudo isso. Mas tomei a decisão de ir a uma consulta de psicoterapia. Em paralelo a este acompanhamento médico, uma das coisas mais importantes nesta minha luta foi ouvir uma pessoa que me era querida, que me conhecia, dizer “temos de tratar desses teus demónios”. Pela primeira vez na minha vida alguém, incluindo eu, se tinha referido ao meu problema como exterior a mim. Não sou eu que sou “defeituoso”. É algo que eu tenho, algo separado de mim. Uma doença. A depressão.

Chegou a altura em que sinto que tenho que me defender. Possivelmente as minhas palavras construíram na mente do leitor uma figura recatada, cabisbaixa, uma apresentação descuidada, uma existência solitária. Na realidade, eu falo em publico, às vezes para 10 pessoas, às vezes para 100 (e por vezes até participo em competições de public speaking). Faço exercício físico regularmente. Mestrado em física. Olhos verdes que chamam a atenção de todas as esferas da vida. Já dancei, já lutei, já pintei. No papel, nada de mim revela o enorme ódio que já senti pela minha vida, o profundo desprezo que já senti por mim. Isto leva a outras reações comuns em quem me ouve: “mas és tão inteligente”, “tu és forte, tu consegues”, “tu aguentas isso e passa num instante”. Eu sei que as intenções são boas, mas também sei que nada disso ajuda. Todas estas atividades, fi-las em busca de algo que gostasse. Mas como é que posso aceitar que gosto de algo se nem sequer consigo reconhecer o “gostar”? Aqui, mais uma vez as vozes bem-intencionadas de “faz isto”, “experimenta aquilo” apenas aumentam a minha frustração com o que vejo como uma deficiência minha.

Em 2008, três anos depois de ter escrito as palavras que iniciam este texto, David Wallace suicidou-se aos 46 anos. Tal como uma insuficiência cardíaca não tratada ou uma diabetes descontrolada, também a depressão pode matar. Mas também tem tratamento. A terapia, a medicação, hábitos saudáveis, há formas de mitigar este peso que sentimos. Os primeiros passos têm que ser sempre nossos: admitir que podemos ter um problema, e procurar ajuda.

Escrever estes textos ajuda-me a organizar as ideias e a processar as sensações. Conhecer as histórias de outros ajuda-me a conhecer melhor a minha. Talvez a minha ajude outros.

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A Minha Peça Estragada


A função do coração é bater. Quando o faz mal, dizemos que é um problema de insuficiência cardíaca. A função do pâncreas é produzir insulina. Quando não o faz, dizemos que é diabetes. A função do cérebro é pensar. Quando não faz o que é suposto, como lhe chamamos? Como é que sequer percebemos?

Há anos que luto contra a depressão. Se bem que “lutar” não é a palavra mais correta. A depressão é uma doença. E como qualquer doença crónica, é algo presente em todos os meus dias, com mais ou menos severidade. É algo que é gerido, não curado ou erradicado. Há dias mais fáceis, outros mais difíceis.

Uma das formas que sociedade atual lida com a depressão é a medicação. “Porquê não pedir ao médico de família para te receitar algo?” é uma pergunta que muitas vezes me foi feita e muitas mais vezes me fiz a mim mesmo. Tenho dois exemplos próximos do uso de antidepressivos. Um deles foi um uso planeado por um psiquiatra e acompanhado com terapia de grupo. Durante um ano esta pessoa esteve “desaparecida” da vida social, focou-se no trabalho e progrediu na carreira. Ao fim de um ano fez o desmame da medicação e mesmo sendo algo difícil, saiu deste processo muito melhor do que entrou. O outro exemplo foi um médico de família que receitou, “para ajudar”. Passados anos assim continua e dificilmente mudará. Estas são as histórias que conheço. Podem ter-me sido mal contadas, podem não representar a experiência comum. Mas foram o que moldaram o meu entendimento de medicamentos: para resultarem é preciso uma rede de apoio social e emocional que eu não tenho; quando não resultam acabam por piorar a situação.

Outra forma é o acompanhamento psicológico. Outros saberão melhor a distinção entre “psicoterapia” e “psicologia” e as suas várias encarnações, assim como a melhor forma de combinar com a medicação. Eu encaro-a como um pagar para ter o apoio que outros teriam de uma família ou grupo social “saudável”. Prostituição emocional. Note-se que isto é uma sobre simplificação que ignora que o que está dentro da nossa cabeça, como qualquer outra parte do corpo, precisa de acompanhamento médico.

Eu tenho consultas semanais de psicoterapia desde 2014. Este processo, como tudo na vida, teve altos e baixos. Algo que notei foi a evolução da minha abertura: se demorei mais de um ano a partilhar esta informação com alguém, hoje é-me mais fácil falar com outros sobre a minha experiência. A minha forma de encarar a minha depressão também mudou. No início eu achava que “o que quer se passe comigo não é mau o suficiente para justificar a etiqueta, há quem esteja pior”. Mas a verdade é que, como tentar caminhar com água até aos joelhos, tudo me era um bocadinho mais cansativo do que eu achava que devia ser. Mais árduo. Tudo envolvia uma fase inicial de desprezo próprio que devia ser aceite para ser ultrapassado. Os físicos chamariam a isto “uma barreira de potencial finito” que é difícil mas não impossível ultrapassar. Não mata, mas mói. E comecei a perceber que talvez essa barreira tivesse um nome. Depressão.

Confesso que tenho um péssimo hábito: tenho uma pilha de coisas que deixo para depois. E-mails que tenho que responder, tarefas a fazer, deixo para depois. E há anos que deixava para depois o questionar o que está dentro de mim. A falta de motivação até para fazer coisas que poderiam trazer prazer; a falta de vontade de socializar, a falta de progressão. Este pesado vazio que carregava em mim há anos que que há anos que se tornava mais pesado. Mas a introspeção não é fácil. Nos dias maus “hoje estou cansado”, nos dias bons “hoje estou bem, não quero estragar”. Um ciclo de pensamento usual era “tenho que pensar melhor nisto” e “amanhã tento preparar melhor as coisas” e no dia seguinte, “não tenho tempo”. Entretanto passou um dia, que se transformava numa semana porque entretanto surgiam outras obrigações. Semanas transformavam-se em meses, que se transformavam em anos. E eu continuava preso neste vazio. A minha psicóloga recomendou que eu desse um nome a esta sensação em mim. Decidi chamar-lhe a minha peça estragada. Porque se “é suposto” gostar e ter trazer, o meu sensor veio com defeito de fabrico. Quis então dedicar os meus dias a desmontar e analisar esta peça estragada. Despedi-me, sem ter o próximo emprego, sem sequer saber qual seria a carreira a perseguir. A pandemia (aqui menos as restrições governamentais e mais o meu exagerado medo) deu-me uma ótima desculpa para ficar em casa. Para olhar para o vazio em mim e na minha vida, sem poder fugir. Agora, a imensidade dos dias é algo que testa todas as minhas forma de cuidado próprio. Cada dia é mais carvão na fornalha dos meus pensamentos. Estes textos nascem disso.

Neste processo há elementos de sorte. Sempre consegui dormir mais de seis horas por noite. Não tenho problemas físicos ou fisiológicos que me dificultem o dia a dia. Não corro o risco de ficar sem comida ou sem teto. O meu dia a dia sempre foi confortável o suficiente para eu “deixar andar”. Quão fácil é deixar-nos em banho-maria até morrer cozido. Os anos em que estou em psicoterapia não “curaram” a depressão, mas a minha depressão também ainda não me matou.

Para quem tem insuficiência cardíaca, há medicação para gerir a condição e cirurgias para casos específicos. Em paralelo, a pessoa deve ter hábitos alimentares saudáveis, assim como um regime de exercício físico com a intensidade e regularidade adequadas. Quando o pâncreas não funciona e a pessoa é identificada como diabética, requerendo o uso de insulina e o controlo de açúcar no sangue. Mais uma vez, alimentação e exercício físico regulares são importantes. Sempre ouvi dizer que não há ex-alcoólicos, só alcoólicos em recuperação. Quer isto dizer que as estratégias que encontramos para lidar com emoções fortes (coping) que se aprendem no inicio vão ser sempre importantes. Um café com um cenário agradável, um livro no nosso canto favorito, uma boa conversa com quem nos é querido, com quem nos quer bem. Da mesma forma, os eventos que tendem a espoletar ruminações ou episódios negativos (triggers) devem ser sempre evitados. Vejo a minha relação com a depressão da mesma forma. Manter hábitos saudáveis, estar vigilante sobre inícios de espirais depressivas, ter linhas de apoio, estas são as minhas formas de lidar. Um dia de cada vez.

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O Meu Dia a Dia


O nosso trabalho, ou pelo menos aquilo que fazemos para o nosso sustento, ocupa horas de (quase) todos os nossos dias. E quer queiramos quer não, o que ocupa tanto do nosso tempo vai fazer parte do que nos define. Aliás, quando conhecemos uma pessoa nova, o nosso trabalho tende a ser um dos primeiros tópicos de conversa. Como se isso não bastasse, também as interações e as pessoas com quem interagimos todos os dias nos influenciam.

“Somos aquilo que fazemos repetidamente” 3. Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Independentemente do nosso título ou da descrição das nossas funções, aquilo em que trabalhamos todos os dias é que define o nosso trabalho. Isto também é verdade para, por exemplo, atividades de tempos livre. Podemos dizer que gostamos de pescar ou jogar futebol. Podemos ter todo o equipamento moderno ou antigo em casa. Mas se há anos que não o usamos, podemos mesmo dizer que somos pescadores ou futebolistas? O outro lado da moeda também é verdade. Podemos rejeitar etiquetas como “vício”, mas o jogar na lotaria diariamente, o beber mais do que um copo de vinho em todas as refeições, são pequenas ações que se acumulam.

Quando queremos fazer alguma mudança na nossa vida, fazemos algo dramático: vamos ao ginásio, fazemos um treino espetacular que nos ocupa uma ou duas horas (mais a ida e a volta) que nos deixa doridos durante dias. E fica estabelecida a ancora: ir ao ginásio ocupa tempo e gasta energia. Voltaremos, agora com menos genica. Se calhar até tivemos que sair um pouco mais cedo de uma outra atividade para chegar ao treino, por isso temos coisas em atraso. Lá está, temos então que compensar no dia seguinte. E quando é dia de voltar a treinar, bem, a verdade é que “o outro já foi puxado, serviu por dois ou três. E hoje tenho que acabar isto”. Rapidamente voltamos ao de antes. Se queremos deixar de fumar e deitamos todo o tabaco para o lixo, lá vem um dia mais complicado que nos faz comprar “o último maço, este não conta”.

Hoje, as redes sociais fazem o seu negócio desta resposta. Algo em nós faz pegar no telemóvel, no computador, e “scrolar”, sem pensar. A “postar” e a receber os tão cobiçados como efémeros “likes”. Mas isso é outra história.

Sair de onde estamos requer energia. Energia para criar mudanças úteis e duradouras. Energia que não temos hoje, que não vamos ter amanhã, que prometemos para o fim de semana ou para o ano novo. Quão fácil é ficar preso. Quão fácil é ficar pela definição do nosso trabalho. Do nosso dia a dia. E deixemos o resto. Os sonhos que tivemos, as possibilidades que vemos nos outros. Uma miríade de futuros possíveis, sacrificados, mortos por mil cortes, no altar da vida diária.

Não conseguimos curar-nos no sitio onde ficámos doentes. Porque a verdadeira dificuldade não está naquele grandioso momento mas sim no acordar cedo num dia de chuva e frio, e mesmo assim pegar no equipamento e sair de casa. O matar o dragão vem do treinar uma vida inteira, passando por cima dos ossos de quem achou que a vida é fácil. Hábito acima de motivação. Consistência acima de grandiosidade.

Claro que também é possível exagerar nos pequenos hábitos. É um mau hábito que eu próprio tenho. Em vez da grandiosa ação, fazemos um pouco disto, um pouco daquilo, e tentamos criar imensos hábitos ao mesmo tempo. Cozinhar, nada de fast food. Quinze minutos de exercício físico todos os dias. Dez minutos a aprender línguas. Caminhar sempre que possivel. E quando nos baldamos a um destes hábitos, “bem, já falhei naquele, não vale a pena continuar”.

Procuramos significado nas nossas vidas, queremos que as nossas ações tenham valor. E uma ação grandiosa parece sempre mais significativa, mais importante do que pequenas ações. Então temos fé num eventual momento em que tudo chegará a uma apoteose, e deixamos as horas que temos na pilha “para depois”. Para depois da promoção, para depois do casamento, para depois de alguém nos salvar. Quão longe vamos para saciar essa procura por validação? Mentimos a nós próprios? É assim que uma vida não examinada leva à credulidade.

Estou (há anos) tão preocupado em escolher o caminho errado, em olhar para trás e achar que desperdicei a minha vida, e passei anos a perder tempo com a hesitação. Tinha medo daquele grandiosamente dramático momento em que percebia que tinha perdido uma vida inteira a fazer algo de errado, algo que não gostava, algo vazio. O resultado é que esses anos, sim, foram passados em hesitação, em escapismo vazio, em todos os problemas que esse estado de espírito trás.

Somos o que fazemos repetidamente. E eu repetidamente evitei, adiei, procrastinei. E agora sinto-me vazio. O que posso então tirar deste meu momento de claridade? Que da mesma forma que demorei anos a chegar a este ponto, também vou demorar anos a sair dele. As estratégias que me ensinei a mim mesmo para lidar com os meus problemas, aquele tão confortável desconforto, aquela dormência que sempre me permeou. Se há anos que dia a dia, tijolo a tijolo, construí a minha Centum Cellas pessoal tenho agora que a desconstruir, desmantelar. Se quero fazer coisas interessantes, tenho que fazê-las. Quero o quê? Viajar? O que não faltam são sites para comprar viagens e estadias. Explorar ruínas antigas? Onde estão? Conhecer pessoas novas? Estão lá fora. Fazer. Sem medo de falhar, sem medo de voltar atrás. Tudo é uma experiência, tudo o que não mata dará uma boa história para contar.

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O Meu Escolher


O que nos faz sair da cama? O que nos motiva num dia normal? Mais importante ou talvez mais fundamental, porque começamos coisas? Começamos a trabalhar porque o relógio assim o dita. Ou porque somos chamados a isso por um bebé a chorar ou por uma goteira na parede. Mas nos momentos mortos, o que nos faz mexer?

Esta é a questão que me tem atormentado nos últimos meses. Enquanto tinha um emprego normal das nove às dezoito, o meu tempo morto era reduzido e tão fácil quão futilmente preenchido com as desculpas de “estou cansado” ou “não tenho cabeça hoje”. Anos preso neste lodo emocional em que, não querendo decidir, deixava que os outros decidissem por mim. Tinha que mudar algo, alguma coisa. Tornou-se abundantemente claro o quão confortável eu estava no desconforto da minha vida, desde que não alargasse o foco da minha perceção para fora dos meus dias. Tinha que mudar. Se quiser ser melodramático, posso usar a imagem dos conquistadores militares que, após atravessarem um corpo de agua com o seu exercito, queimaram os seus barcos para que fosse claro que o fugir para o antigamente não era opção. A partir do momento que submeti a minha carta de demissão, o dado estava lançado e tinha que ser eu a tomar a decisão. Tinha que ser eu a fazer acontecer.

Estou convencido que o que me custa mais é a decisão, não a ação. A incerteza de vou / não vou, faço isto / aquilo deixa-me mais cansado do que a ação em si. Porque antes de começar, existe a possibilidade. A pura e singela possibilidade de que tudo vai correr perfeitamente até se atingir o resultado perfeito. Qualquer desvio desta rota não só não é permitido como é como é única e exclusivamente culpa minha. Repare-se no quão pérfido é esta linguagem. É culpa minha. A forma mais tóxica de encarar a responsabilidade que cada um tem sobre a sua vida. Este era um dos meus mecanismos de sobrevivência.

Como uma folha em branco, cada momento tem que receber de nós significado. Quando o dia acaba, acabou, independentemente das decisões que tomamos. E quando chegar o nosso dia final, não vai chegar uma entidade com um voucher de de dias extra. Ah! Mas chegamos agora ao problema derradeiro: escolher implica perder. Dinheiro gasto num jantar com amigos já não paga um livro ou um filme. Mais tempo a aprender uma língua é menos passado em viagem. E quando temos que encarar este Adamastor emocional; quando temos que escolher uma coisa em detrimento de várias outras, quão fácil é ficar pelos estímulos imediatos. Pela Internet. Pelos outros. Pelo externo. Se as oportunidades se escaparem olha, azar. Haverá uma próxima vez.

A agora a Internet tem ainda mais possibilidades. Aprender línguas, comprar um instrumentos musical e encontrar quem ensine a tocar. No antigamente, o destino era dado pelas circunstâncias. Será que Louis Armstrong teria sido um exímio pintor se tivesse comprado um cavalete em vez de um trompete? Ou Eça de Queiroz poderia ter sido um cantor de opera em vez de um dos mais conhecidos romancistas portugueses?

Como fazemos coisas então? Como escolher? E porquê começar? Sheena Iyengar4 diz que demasiada escolha é contra-producente. Temos então que limitar as nossas escolhas antes de escolher. Por outro lado, há livros inteiros escritos sobre como ser produtivo, sobre força de vontade. O que implica uma decisão sobre o que fazer. Quanto de nós é ponderação filosófica e quanto é logística de planear o nosso dia, de bloquear as redes sociais quando queremos ser produtivos?

Podemos também confiar noutra pessoa. Um familiar, um amigo, um mentor. Podemos seguir um grupo, um lema, uma causa. Vamos pôr a nossa existência no externo? Noutra pessoa? O que acontece quando essa pessoa desaparece? Ou prioriza outros? Com as devidas exceções, ninguém é obrigado a cuidar de nós. A se sacrificar ou investir o seu tempo por nós.

Voltemos à questão inicial. Sem obrigações, porquê fazer? Os objetos são feitos com um objetivo. A roupa é para ser vestida, um carro para ser conduzido e transportar. Qual é o objetivo de uma pessoa? Sartre escreveu que “a existência precede a essência”. Nós não temos um objetivo, por isso temos a liberdade, até mesmo a obrigação, de definir o nosso objetivo.

Como ficamos então? É importante ter um objetivo de vida. E para concretizar, ações e hábitos para peça a peça, dia a dia, construirmos a nossa vida. Mas o que acontece se estamos errados? Tempo e energia atirados à lareira. Mas não sabemos se não tentamos. A Internet permite acesso a 1001 coisas, tentamos tudo? O que rejeitamos? E o que é que isso implica perder? As limitações inerentes à existência humana definem que poucas serão as coisa que podemos experienciar, ainda menos aquelas em que podemos verdadeiramente imergir-nos.

Qual é o meu objetivo? Uma pergunta simples com uma resposta de dificuldade imensurável. Temos que ser nós a definir onde queremos encontrar valor. E eu que passei anos a achar que eventualmente ia “encaixar” num sitio qualquer. Esta minha imagem de uma pessoa arrependida das decisões de carreira, presa num purgatório, nasce da catastrofização. Acreditava que tal acontecia por decisões antigas, tomadas anos atrás. Mas a vida são dias, não é uma decisão hipoteticamente fundamental. Ah! É tão fácil acreditar que há apenas um grandioso momento na nossa vida, e que de resto não temos que nos preocupar. E em passando esse momento, está tratado, não tenho que me preocupar mais. Não há mais a dizer. Todos estes anos que fugi da escolha, no dia a dia, fiz-la mesmo assim. Os “só cinco minutos” de escapismo que se tornaram horas vazias, em dias sem conteúdo, em meses sem utilidade.

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  1. https://fs.blog/david-foster-wallace-this-is-water/↩︎
  2. https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_vamosfalardedepressao_documento.pdf↩︎
  3. Normalmente atribuída a Aristóteles, foi na realidade escrita por Will Durant em 1926 para resumir uma passagem do filósofo grego. Retirado de https://wist.info/aristotle/1334/↩︎
  4. https://sheenaiyengar.com, https://en.wikipedia.org/wiki/Sheena_Iyengar↩︎
  5. Viktor E. Frankl, Man’s Search for Meaning↩︎